A comunidade cristã que se reunia na cidade grega de Corinto, nos primórdios da missão cristã em território europeu, poderia ser caracterizada como uma congregação com grande potencial e enormes desafios. Uma comunidade que, segundo o apóstolo Paulo, havia sido enriquecida de tal forma pela graça de Deus que se notava entre eles a presença de todos os dons espirituais (1 Co 1. 4-7).

Por outro lado, ao longo da carta, vamos tomando ciência de que também não faltavam problemas naquela comunidade. Entre esses problemas, divisões internas escancaradas, alimentadas pelo orgulho espiritual, ameaçavam a unidade do grupo. Mas, o que estava na base, no “subsolo”, servindo de alicerce par este sectarismo?

No capítulo 13 de sua carta, Paulo descortina o âmago do problema na igreja de Corinto: a falta de amor. Alguns comentaristas sugerem, com razão, que a aplicação primária deste texto se refere à vida comunitária da igreja local. Ao mesmo tempo, os outros espaços da nossa convivência cotidiana não devem ser excluídos, pois se os desafios do texto se aplicam ao relacionamento entre irmãos na fé, quanto mais devem ser aplicados ao relacionamento conjugal, entre pais e filhos, no trabalho, etc.

Através deste belo texto poético, portanto, o apóstolo incentiva os coríntios a questionarem suas motivações mais profundas. Qual era a razão motivadora de suas tarefas e relacionamentos na vida comunitária? Essencialmente, o que buscavam ao desenvolver seus dons ministeriais? Estavam dispostos a seguir “um caminho ainda mais excelente”, dispondo suas vidas para um verdadeira revolução relacional?

Para entender o que a Bíblia fala

  1. No início do capítulo 13 (vv. 1-3), Paulo nos mostra os resultados de usarmos nossos dons sem amor. Por que isso é tão trágico para nós e o nosso próximo?
  2. Ainda considerando os vv. 1-3, qual deve ser o fundamento das atividades descritas neste trecho? Sem esse elemento essencial essas atividades, em si mesmas, servem para algo?
  3. Faça uma lista com as características do amor, e outra que inclua o que não é ou não faz o amor (vv. 4-7). Dando uma olhada nas suas listas, em quem se concentra a descrição do amor? E quem é o centro, quando não há amor?
  4. No v. 8, Paulo nos apresenta a supremacia do amor. Em comparação com o amor, por que os outros dons espirituais têm um valor limitado? Quando não forem mais necessários a profecia, as línguas e o conhecimento, o que permanecerá em nós e em nossos relacionamentos?

Hora de Avançar

Enquanto foco no que o eu autocentrado deseja e pensa, mantenho o condicionamento retensivo (possessivo), que é um movimento gerador de tensão. Apenas quando passo ao movimento distensivo (de entrega) é que produzo relaxamento e promovo o eu relacional.

Catito e Dagmar Grzybowski

Para pensar

A descrição do amor oferecida pelo texto nos coloca contra a parede. Não há como ficar indiferente. Começamos a enxergar o que realmente é importante para Deus, e somos redirecionados para a nossa verdadeira vocação como cristãos.

Segundo David Prior (A Mensagem de 1 Coríntios, ABU Editora), “a palavra grega para ‘amor’ no Novo Testamento, agape”, começou a ser utilizada porque o amor originado em Deus transcendia completamente os conceitos e as ideias humanas de amor.

Para a análise dos vv. 4-7, diversos autores utilizam os cabeçalhos do teólogo Karl Barth . Através destes cabeçalhos, o eminente teólogo divide a passagem em três partes: vv. 4b-5a (“o amor e as trevas em nós mesmos”); vv. 5b-6 (“o amor e as trevas dos outros”); e v. 7 (“o amor e as aparentes trevas em Deus”). Podemos notar também que, neste trecho, os verbos utilizados por Paulo estão no presente contínuo, indicando atitudes que vão se repetindo dia a dia, até se tornarem habituais.

O que disseram

O que torna a tentação do poder aparentemente tão irresistível? Talvez seja porque o poder oferece um fácil substituto para a difícil tarefa do amor. Parece mais fácil ser Deus do que amar a Deus; mais fácil controlar as pessoas do que amar as pessoas […] À pergunta de Jesus: “Você me ama?” respondemos perguntando: “Podemos assentar-nos à Tua direita e à Tua esquerda em Teu Reino?” (Mt 20.21) […] Graças a Deus temos o exemplo daqueles que resistiram a essa tentação até o final e que, por meio dela, dão-nos esperança. Eles têm um nome: santos. Verdeiros santos.

Henri Nouwen (“O Perfil do Líder Cristão no Século XXI”)

Para responder

  1. Que aspectos do amor descrito nesta passagem você mais precisa desenvolver em sua vida? Pense em todos os seus relacionamentos – em casa, no trabalho, na igreja…
  2. Além de nos mostrar como deve ser o amor, essa passagem nos fornece um retrato incidental de Jesus – que ama plena e perfeitamente. Releia os versos 4 a 7, substituindo a palavra amor por Jesus; e depois substituindo Jesus pelo seu nome. Que imagens novas e desafiadoras você adquire por meio deste exercício?

Eu e Deus

Senhor, faze-me um instrumento de tua paz.
Onde houver ódio, que eu semeie o amor;
onde houver ofensa o perdão;
onde houver dúvida, a fé;
onde houver desespero, a esperança;
onde houver escuridão, a luz;
onde houver tristeza, a alegria.
Ó divino Mestre, dá que eu procure mais
consolar do que ser consolado,
compreender do que ser compreendido,
amar do que ser amado.
Pois é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
é morrendo que se nasce para a vida eterna.

(Francisco de Assis, século XII)

*Verso de Carlos Drummond de Andrade, em O tempo passa? Não passa(Amar Se Aprende Amando, 23a Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2000).

Autor do estudo: Reinaldo Percinoto Júnior